domingo

Quase Famosos




Que bom que essa trilha acabou de chegar aqui, no meu Toshibão.


Não haveria melhor momento para escutá-la. Dia nublado, chove lá fora e eu aqui, me chama, me chama, me chama...

Tem vezes que eu preciso do ar da graça dos 70's. Adoro ouvir músicas que eu ouvia em casa, que meus pais botavam na vitrola num dia chuvoso.

Quase Famosos, o filme, assisti faz tempo. Com meu pai, aliás. O doidão. Delícia de filme.

Adoro o Cameron Crowe e ele adora retratar gerações e os comportamentos e canções que envolvem suas tribos. Foi assim em Singles e, se você pensar bem, em Vanilla Sky também.

Eu tava aqui, agora que aquela maldita dor de cabeça passou, enfiada na leitura de coisas do Freud, teorias da personalidade e afins, o nariz já marcado pelo óculos, ouvindo Sophia Malman (que também é perfeita nos dias de outono-pq se for no inverno dá pra cortar os pulsos) e pensei: cara, preciso de uma pausa. Que será que chegaram as músicas que botei pra baixar?

Tava fuçando torrents de trilhas e, sem querer, vi a de Always Famous e dei um enter.

Porra, que delícia!

Lembrei súper do filme, que fala do jornalista mirim que é recrutado pela Rolling Stones pra fazer uma matéria da banda de rock top do momento. E tem aquela coisa de moleque conheccendo o mundo, a música, as drogas, as garotas, os dramas e as belezas da vida na estrada, sem rumo, sem dono. Ah, os 70's, né. Aquela coisa.

Mas ouvir a trilha hoje foi tão gostoso quanto quando eu tinha uns 15 anos e queria sentir a sensação do que é bucólico, do que é solidão, do que é o conforto da solidão. E passava uma tarde inteira de outono sentada na escadaria do Teatro Municipal, com minhas calças rasgadas e minha camisa xadrez fumando cigarro e observando tudo, sempre observando, naquele cenário cinza que é o centro de sÃo Paulo, principalmente no outono.

E hoje eu acordei e pensei que esses dias me senti como uma adolescente boba, quando vi ele na frente do bar, sexta-feira agora, e não soube o que fazer. Aquele cheiro atrás da orelha, o abraço, o beijo na trave e o sorriso que me deixou totalmente desconcertada, morrendo de vergonha porque minhas pernas tremiam e eu não queria que ele percebesse. E dei as costas depois de falar alguma coisa sem a menor criatividade, tipo "você já tocou?, porque eu tava morrendo de vergonha, com vergonha de ele me ver corar ou ouvir as batidas do meu coração. Que boba, me senti uma boba. Ainda mais porque não parecia uma boba, parecia uma pessoa blazé, dessas que eu odeio, que passam a noite com você e quando te vê de novo finge que não foi nada. Quem dera não ter sido nada. Não, ainda bem que foi tudo, mas agora eu não sei o que eu faço com as lembranças de uma manhã emendada numa tarde de dormir e acordar entre beijos, carinhos e sussurros, saliva e suor, sem pressa, sem vergonha, sem pretensão além de passar um momento ótimo e honesto, o cheiro que não sai do lençol e a imagem daqueles olhos cinzas que sorriem como os de crianças.

E aqui, tocando That's the way, do Led, me faz sentir um grande conforto. Porque apesar das minhas reações estúpidas de uma pessoa que na frente de um par de olhos cinzas, quase cava um buraco pra entrar de tão tímida, eu penso que estou hoje exatamente onde eu queria estar.

Estou à flor da pele, sentindo que o pulso ainda pulsa, que o coração sangra, que a cabeça dói e tudo isso é incrível, porque passei tanto tempo num torpor existencial, querendo mais, querendo viver o âmago da vida e sem viver e nem saber até.

Na trilha também tem uma música do Cat Stevens (The Wind) que eu adoro, tem Allman Brothers Band, puro roquenroll bem do jeito que eu gosto, tem Feel Flows do Beach Boys que é pura viagem com flautas maravilhosas, tem Thunderclap Newman, Simon and Garfunkel, e Todd Rundgren no melhor estilo antena um(este último principalmente). Não posso negar minha paixão pela Antena1 FM. Careta pra caramba, tem o tipo de música que me conforta na hora certa. É mais ou menos como aquelas músicas que a gente elege pra dormir, tipo Yo La Tengo, Gustavo Santaella e AIR.

Agora, com medo do que vou descobrir, vou voltar pras teorias de personalidade e talvez achar de onde veio essa minha súbita timidez que me invadiu quando os olhos cinzas olharam os olhos meus.

Deixo aí o Clarence Carter, só porque hoje eu vou dormir bem. Só comigo, mas muito bem.





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